A regulamentação do trabalho no Brasil remonta à era Vargas (1930-1945). A existência de uma legislação consolidada é um fato relevante para o sistema produtivo brasileiro. A Consolidação das Leis de Trabalho foi lastreada sob a égide da Carta Del Lavoro da era fascista italiana (1929-1944). A existência de uma legislação regulatória é louvável quando examinamos o perfil cartelizado da economia privada brasileira, porém, a sua aplicação atual exigiria uma revisão flexibilizadora frente à concorrência mundial do processo produtivo. Enquanto isso, a legislação do trabalho para o setor público obedece outros princípios, porém num formato mais contundente, engessa a gestão pública em vários sentidos. Há o lado bom, localizado na proteção das carreiras de estado (segurança nacional, magistrados, assuntos fazendários, diplomatas), porém em um mundo tão veloz, deveria flexibilizar os contratos em casos semelhantes ao mercado. A conta no setor público fecha pelo menor e insuficiente desempenho.
Voltemos ao tema dos riscos: quais os riscos trabalhistas que compõem a matriz dos maiores riscos para organizações privadas e sem fins lucrativos dentro desse cenário?

No artigo anterior apresentamos alguns riscos, e neste iremos aprofundar a análise referente aos reflexos da atual legislação e sua interpretação no decorrer de décadas pela justiça trabalhista.

1. A regulamentação profissional
Quando a profissão está regulamentada, como é o caso dos jornalistas, radialistas, aeroviários, por exemplo, a legislação limita o número de horas a um montante inferior em relação a outras profissões não regulamentadas. Por outro lado, concede ao trabalhador, uma carga inferior àquela de que ele estaria disposto a oferecer ao mercado. Dessa forma, há uma desobediência pelo mercado à legislação, maior ou menor, de acordo com o setor de atividade e a opção do trabalhador.

Caso haja um processo sindical ativo, a legislação é obedecida próximo da íntegra, e as conseqüências de sua desobediência levará a empresa ao pagamento de multas, além de sofrer sentenças judiciais adversas. Ambas significam perda de valor e possibilidade de criar um passivo maior que seu patrimônio, ocasionando sua paralisação no futuro. As sentenças tem o poder, quando executadas, de penhorar, leiloar bens, como seqüestrar saldos bancários. Esses eventos, hoje, são muito comuns e constantes, um pesadelo para empresários em dificuldade. As empresas enquadradas pelo sistema sindical com funções regulamentadas deveriam, dentro de suas possibilidades, enfrentar seu destino. Na esfera do mercado, há empresas de comunicação que precarizam suas relações com a anuência de seus colaboradores, na expectativa de se revelarem lucrativas.
É uma falsa perspectiva, pois a punição pela desobediência poderá levá-las à extinção a médio ou longo prazo. Basta uma conjunção de eventos negativos e pronto, revelam-se as mazelas. Os exemplos da Rede Manchete e Tupi são eloqüentes. Na área aeroviária, há os exemplos da Transbrasil, Varig e Vasp.

2. Terceirização
Quando as empresas terceirizam atividades auxiliares para o seu desempenho, devem se acautelar quanto ao seguinte:

a) As contribuições sociais do contratado devem estar absolutamente em dia com os funcionários que prestam os serviços para a contratante. Portanto, é obrigação das partes (empregador e empregado) a verificação mensal de seu pagamento.

b) As horas extras não devem extrapolar a legislação e os acordos coletivos.

c) A aplicação dos itens sociais e econômicos dos acordos coletivos deve ser objeto de auditoria contratual.

d) O contratante deve exigir da contratada, que seus funcionários cumpram o intervalo de descanso estabelecido na legislação e nos dissídios.

A Justiça Trabalhista apença o contratante a solidariedade quanto a qualquer desobediência, descumprimento ou inadimplência por parte do contratado. Em outras palavras, a contratante desempenha o papel de fiscalizar o contratado, somada o fato de ser imputável, solidária e conivente com as irresponsabilidades praticadas por seus contratados.
Atualmente, portanto, a terceirização pode ser classificada como um dos maiores fatores de risco organizacional.

No próximo artigo, abordaremos outros riscos organizacionais.

Ronaldo Bianchi

Ao escrevermos cinco artigos sobre a previsibilidade do futuro nas organizações, nosso objetivo foi apontar as causas e as conseqüências dos atos administrativos, as influências do governo e da sociedade.

Nesse artigo, nossa intenção é apontar alguns riscos que se despercebidos, são perigosamente relevantes, e oriundos de fatores como: legislação, cultura e administração de recursos, que impõem uma agenda de cautela para os administradores. Os riscos podem variar conforme a área de atuação de uma organização, outros permeiam qualquer tipo de organização. O impacto dos riscos quanto às regras de preservação do meio ambiente, é mais relevante para as indústrias e para a agricultura do que para as áreas da economia criativa (agências de publicidade, museus e comunicação, por exemplo). Para essas últimas, os riscos do direito autoral e dos conexos tem grande importância.

Outros riscos são relevantes para qualquer tipo de organização. São aqueles ligados ao cumprimento da legislação trabalhista, da administração financeira, dos procedimentos contábeis e os que se referem ao tratamento dos recursos humanos.

A organização tem a obrigação de mapear seus principais fatores de risco no sentido de administrá-los, evitando sua ocorrência ou minimizando seus efeitos. Deve administrar seus riscos com o rigor proporcional aos seus efeitos e a direção tem a obrigação de realizar inspeções freqüentes dos indicadores e dos fatores de risco. Afirmo que não importa o tamanho da empresa, os riscos serão fatores desestabilizadores da vitalidade e até mesmo da sobrevivência empresarial.

Vamos examinar os riscos do descumprimento da legislação trabalhista. A legislação brasileira permite contratações de diversas formas, e de acordo com o tempo, a função, a freqüência, a hierarquia, a assiduidade e a responsabilidade. Assim, contratamos sob várias formas: autônomas, pessoas jurídicas, pessoas vinculadas a cooperativas, pela consolidação do trabalho por tempo determinado ou indeterminado.

A disfunção contratual, por conta da má contratação, começa quando o gestor acredita que poderá reduzir seus custos operacionais, deixando de contratar seus fornecedores ou colaboradores da forma legalmente correta. É freqüente em pequenas organizações, não registrar seus funcionários, fato que pode decretar o seu fim. Basta que um funcionário sofra um acidente fatal ou que o lese de forma permanente, durante o exercício de suas funções, e o empresário poderá responder por danos morais e ser condenado a indenizar a vítima e sua família. Essa, talvez, seja a face mais trágica de desfecho pela forma imprópria de contratação. Esse tipo de contratação era comum em empresas de entrega por motocicletas, imaginem o passivo criado por esses empresários iniciantes.

Nas grandes organizações, onde supomos que não haja contratações informais, sempre há algum argumento para que contratações por tempo indeterminado sejam transformadas em contratos com pessoas jurídicas. O risco passa a existir desde o primeiro dia da contratação do profissional. É muito comum esse tipo de relação ser estabelecido na área de comunicação. Outra forma ilegal praticada por pequenas e médias empresas que fornecem para grandes empresas é a contratação por um valor básico e deste, recolhem-se as contribuições sociais, o valor complementar é pago sem registro (“por fora”).

Dessa forma, as grandes empresas devem acompanhar de que forma seus fornecedores contratam seus colaboradores, em especial para funções onde a prestação de serviços ocorre nas dependências da contratante. Caso o contratado seja desleixado, cabe à contratante destratar a sua relação e partir para outro. A conivência com atos ilícitos é imputável ao contratante (executivos e conselheiros). Portanto, o tratamento de atos ilegais será a intolerância.

No próximo artigo daremos seqüência ao assunto.

Ronaldo Bianchi

Os cuidados com alguns fundamentos das organizações definem as suas capacidades relativas à longevidade e às forças de superação nas crises.

Quais seriam os fundamentos mais evidentes?

1. Capacidade de investimento – as empresas que descuidam da renovação, atualização e aumento de sua produtividade constante assinam um atestado de óbito prematuramente. Essa “fatura” será cobrada pela falta de investimento, ou pior, pela incapacidade da organização em conseguir investir. Quando? Outras empresas começarem a abocanhar nacos de seu mercado, ou quando uma importante crise setorial abater sobre o mercado. Nesse momento, sua estrutura deverá:

a) Estar enxuta (pela produtividade).
b) Com custos a prova de crise, em outras palavras, projetar lucros mesmo quando a demanda se retrair.
c) Ter flexibilidade na linha de produção (dada a sua modernização).
d) Apresentar preços competitivos aos padrões internacionais.

2. Integração e treinamento da equipe – as empresas com o melhor modelo de compromisso com sua força de trabalho poderá superar as adversidades com melhor possibilidade de êxito do que aquelas que enxergam os recursos humanos como custo, fardo, mal necessário, ou não passam de números. As empresas que remuneram pelo êxito, desempenho individual e por grupo e geral serão mais bem recompensadas do que aquelas que não compartilham seus resultados.

3. A profissionalização da administração – tenho o comando familiar como um importante fator de empreender dentro de cenários adversos. Há que reconhecer o valor daqueles que visionaram oportunidades, quando outros as enxergaram como obstáculos. Focar na solução e não no problema faz a diferença. Porém, tudo dá certo por um tempo, e não por tempo indefinido, seja qual for a organização. Enxergar o momento certo de o empreendedor compartilhar com os empresários (da família ou profissionais) é fator decisivo para o sucesso.

Para ilustrar os comentários, podemos citar:

1. A falta de investimento levou a Antarctica a ser vendida para a Brahma.

2. A integração da equipe e o treinamento levaram a Procter & Gamble a ser uma empresa centenária em constante crescimento, assim como a 3M e a Dupont.
3. A profissionalização transformou o Grupo Ultra em uma das organizações mais lucrativas e perenes do Brasil e, da mesma forma, a Embraer.

Os exemplos de superação estão ligados à capacidade de conhecimento dos mercados onde atuam, na valorização do lucro, no investimento contínuo, no cuidado com os recursos humanos, e na capacidade estratégica da direção das empresas e de seu autoconhecimento.

Ronaldo Bianchi

A história das organizações nos coloca que é uma verdade dentro de um prazo de tempo. Não há futuro indefinidamente previsível. Qual é o prazo de validade da previsibilidade? Isso dependerá: das forças que dirigem as organizações, como a maturidade dos seus mercados de atuação, dos ciclos econômicos de produtos ou serviços que realizam, de sua direção executiva, das intenções de seus acionistas, das regras governamentais, das condições macro-econômicas do país onde atuam (vale o plural para as multinacionais), das condições naturais (meio-ambiente) e dos avanços tecnológicos.

Há 20 anos, tínhamos como prever que organizações como Amazon e Facebook apareceriam com a força que irromperam? Da mesma forma, não pudemos imaginar que o mundo corporativo nos apresentasse situações críticas como em 2008. Além da crise que agora, no final de 2011, apresenta-se com um conjunto relevante de países europeus falidos e no limite de um calote histórico.

Como as organizações poderiam garantir-se nessas condições gerais tão adversas?

Primeiro, cabe avaliar se o seu negócio tem futuro, Se você é uma indústria e produz brinquedos, seu horizonte dependerá: da taxa de natalidade, dos insumos importados, da taxa de câmbio, das sobretaxas de importação, das atualizações dos seus concorrentes, da capacidade das empresas atuarem em conjunto no sentido de protegerem seus interesses coletivos. Outro exemplo seria o das empresas do setor de serviços, onde as condições estratégicas dependerão de: qualidade da operação, regras do setor de atuação, interesses de outras organizações (empresas globalizadas carregam fornecedores globalizados), satisfação dos clientes, lucratividade real do negócio.

Algumas áreas de prestação de serviços ainda são muito informais em suas contratações, fato que cria condições de alto risco trabalhista e futuro passivo. Algumas empresas como as de assessoria de imprensa e comunicação são típicas no descumprimento das leis trabalhistas. Há um pacto entre empregador e empregado para a desobediência às leis, que impacta negativamente na arrecadação previdenciária e, até mesmo em alguns casos, refletem em situações como evasão fiscal.

Essas condições de descumprimento coletivo aceleram a imprevisibilidade do seu futuro. Como não há cumprimento generalizado das normas, os aventureiros tendem a crescer em maior velocidade do que aqueles que cumprem suas obrigações. Porém, seu prazo pode ser curto, caso haja uma conscientização dos prejudicados com esse ambiente. Aos prejudicados, caberia procurar as autoridades e dar cabo dessa situação lesiva à livre concorrência.

Nos próximos artigos iremos abordar outros setores e exemplos.

Ronaldo Bianchi

1. Os juros brasileiros – quando construímos um plano de negócios para uma atividade, devemos, a priori, estabelecer o critério da relatividade do risco da operação frente a um rendimento seguro como, por exemplo, os juros pagos na compra de títulos do governo brasileiro. No nosso país, qualquer negócio deverá partir de uma lucratividade superior a 8% para se justificar. Por quê? Com o governo pagando 14% ao ano, descontada a inflação, sobram os juros líquidos, ou seja, 8%.

2. A burocracia é intrincada – para a instalação de unidades industriais, de extração mineral e agrícola. Não sou adepto e não preconizo o desmatamento, a poluição do solo e do ar e dos lençóis freáticos, muito menos dos nossos mananciais. O que preconizo é que haja agilidade na análise desses aspectos, expedição de habilitações e certidões. Creio que nenhum investidor colocará seus recursos em empreendimentos passíveis de multa, interrupção de atividades ou exposição à máquina pública de fiscalização. O empresário não está disposto a correr riscos nos quais seu empreendimento poderá ficar funcionando “sob judice”. As regras e procedimentos devem ser suficientemente claros, universais e com prazos e custos definidos. Os negócios não podem depender da “boa vontade”, “do conhecimento” de tal ou qual servidor ou autoridade pública para iniciar sua instalação.

Há muito tempo, Marcos Cintra Albuquerque, hoje, secretário do trabalho da capital paulista, atribuía a simplicidade da oneração das operações financeiras (imposto único), em troca da extinção do amontoado contábil e o deslocamento dos arrecadadores públicos para a verificação das contas suspeitas como a de traficantes, contrabandistas e contraventores. Ele não conseguiu convencer quem manda no país, a simplicidade desse ato. Desarmaria interesses seculares e traria transparência notável para as operações de arrecadação. Estariam todos transparentes frente ao Fisco, como deve ser em um regime democrático e republicano. Quanto às exportações, estariam desoneradas do imposto único e poderíamos acelerar nosso crescimento.

3. Os encargos sociais – de nossa folha de pagamento atinge uma importante parcela dos custos operacionais de uma empresa. Cada trabalhador e empresário contribui com valores expressivos à burocracia da previdência. A cada R$ 100,00 de salário, o conjunto empresário-trabalhador acrescenta mais R$ 89,00 a R$ 103,00, conforme a apropriação dos custos que queira escolher. Se esses volumes garantissem a nós, uma aposentadoria tranqüila, um atendimento público de saúde satisfatório, o treinamento constante dos trabalhadores e a segurança do emprego, talvez, valessem o custo.

Porém, a verdade é que o setor produtivo (empresários e trabalhadores) não se beneficia no aspecto público da universalidade de seus direitos. São os deveres mais custosos da nossa produção. Os empresários e seus trabalhadores sustentam, além de sua medíocre aposentadoria, a integralidade da aposentadoria do serviço público. É justo? Estamos todos os dias matando nossas galinhas dos ovos de ouro, quando abrimos nossas fábricas, mineradoras e as atividades do agronegócio. “Fazemos negócios para a China”. Faria muito bem ao país, desonerar as folhas de pagamento, onerar o consumo, reduzir juros e a burocracia pública, diminuir os encargos sociais como, também, os intermediários, privados das exigências fiscais e parafiscais.

Ronaldo Bianchi

Quando terminei o artigo anterior sobre o desenvolvimento brasileiro, indiquei o ordenamento do dólar como primeira medida. Precisamente, o alvo é desvalorizar o Real frente ao Dólar, cotado, há meses, entre R$ 1,60 – R$ 1,66 por US$ 1.00. Mantida essa situação, continuamos a abrir nossas portas à especulação financeira, à destruição da indústria de manufatura, ao empobrecimento da agricultura de exportação e à redução dos salários das áreas de melhor remuneração. A pergunta que fica no ar é: para quem interessa o dólar a R$ 1,60? Por que não se toma decisões para ampliar a nossa capacidade industrial ou para dirigir os recursos no sentido de modernizar nossa infraestrutura?

Para valorizar o Real, o governo federal deveria:

1. Aumentar as alíquotas de importação para bens industriais em todas as frentes de bens de consumo, ficando fora os bens industriais.

2. Taxar as remessas internacionais dirigidas à especulação financeira e, da mesma forma, ampliar gradativamente a taxação até que o valor do dólar voltasse a um patamar superior a R$ 2,00.

3. Criar uma alíquota para exportação de commodities não desvalorizadas. Não seria difícil regular sua flexibilidade. Como são itens cotados em bolsa com valor futuro, manobrar as alíquotas para cima ou para baixo, dados os instrumentos atuais, teria sua eficácia garantida.

4. Ampliar o prazo de saída de capital especulativo. O dólar, nas condições atuais (real apreciado e governo titubeante), interessa: a) às tesourarias dos bancos que cobram pelos seus serviços, às aplicações em empréstimos de curto prazo em bolsa de valores, a capital de giro e títulos do governo; b) aos importadores de bens de consumo das áreas têxtil, de calçados e de montadoras de veículos, que escolheram o Brasil por sua estabilidade política, jurídica, regulatória, além, é claro, de um mercado em expansão.

5. Reduzir a taxa Selic.
Por que não usamos a poupança externa para expandir nossa capacidade de infraestrutura? A resposta é simples: todos os agentes com essa capacidade não acreditam que o dólar irá permanecer com essa cotação a longo prazo. Acreditam que o real está artificialmente valorizado. Endividar-se em dólar sem estar “assegurado” por alguma operação garantidora (hedge), seria sofrer um golpe negativo relevante quanto às expectativas de resultado de seus investimentos.

Se não desvalorizarmos o real:

1. Destruiremos empregos industriais que exigem um investimento expresso em cada um deles (mais de R$ 100 mil por unidade).

2. Ofereceremos nossos empregos aos asiáticos, sem, ao menos, ganhar nada em troca (taxa de importação superior à atual).

3. Adiaremos nossos investimentos em infraestrutura sem prazo determinado, comprometendo o que restará da nossa indústria e agricultura, que ainda resistem.

4. Comprometeremos os ganhos com a exportação de nossos produtos agrícolas.

5. O governo criará condições para que haja uma taxa inflacionária maior pelo lado do custeio, e não mais pela demanda.

Ronaldo Bianchi

Nesta última semana, o presidente executivo da Apple, Steve Jobs, cedeu seu lugar. Ao mesmo tempo, passa a ser o presidente do Conselho de Administração da Apple.

Foi publicada uma foto que mostra sua debilidade física, e até quando escrevo esse artigo, sua autenticidade não foi desmentida. Se falsa ou montada, o autor merece uma reprimenda por ato ilegal. Caso seja verdadeira, coloca a dimensão humana em seu devido lugar. Não somos melhores do que os outros, apenas diferentes. Cada um de nós terá um fim e nos cabe aceitar as condições naturais de nossa fragilidade. Porém, cada um de nós deixa um legado, uma história. O planeta possui bilhões de anos e vivemos, até hoje, não mais do que uma centena deles. Portanto, muitos já nasceram e se foram. O que cada um legou ao(s) outro(s)? Há um imenso número de possibilidades, desde o fazer algo que tenha mudado as condições de vida, alguns que nos levaram à guerra, outros que inventaram vacinas salvadoras até aqueles causadores de dor, constrangimento e agressividade. O comportamento de Steve Jobs, entre outros conhecidos e anônimos, foi o do bem.

Li suas duas biografias, onde se vê uma pessoa perfeccionista, voltada a servir e extrair de si e dos outros o melhor de cada um, a cada momento. Muitas vezes, essas situações são reveladoras da inteligência: frações de segundo, insights e emoções para a conquista do ainda irrealizado. Momentos que exigem foco, concentração para escolher a decisão de sucesso ou de fracasso. Do que li sobre Steve Jobs, ele nunca se julgou um Deus. Porém, é um Mago, oferecendo-nos soluções criativas, carregadas de muitas possibilidades para, diariamente, nos organizar, comunicar, sonhar com o futuro, corrigir nosso passado e garantir a possibilidade criativa de agir dentro do presente.

Quando afastado da Apple, em 1985, criou a Pixar, nos oferecendo outro lado, o lúdico. Desconhecido? Talvez para nós que não o conhecemos. O que ele fez até hoje? Criou formas engenhosas, transferindo nossas possibilidades cerebrais para mecanismos eletrônicos e softwares inovadores. Ele mudou muito o mundo nas últimas três décadas através de sua imaginação, obstinação, coragem e ousadia. O seu legado está representado nessas possibilidades criativas, combinadas com a cooperação de seus milhares de colaboradores, consumidores e não consumidores.

Quando vi a foto daquele homem exaurido, também vi uma expressão davinciana. Se falsa, bonita, se verdadeira, maestra. Ele, como muitos outros famosos e anônimos do bem, transformaram o mundo naquilbo que ele possui de bom. Seu legado estará íntegro e completo ao seu final.

Amém!

Ronaldo Bianchi

O Brasil apresenta uma característica peculiar sob o aspecto político: o adesismo ao governo de plantão é uma constante, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Nosso Congresso Nacional apresenta um exemplo expressivo dessa característica, dos 520 representantes, 80 deles são de oposição, ou seja, não há oposição. São 13% contra 87% de adesistas ou membros da coligação, o que significa que qualquer demanda do executivo será aprovada sem muita luta. A derrota do Código Florestal, votado num período de ressaca, foi exceção no Planalto. O PMDB de Temer e o PR de Costa Neto estavam às turras com o executivo, por não aceitarem o início da faxina. Esse deveria ser o tema central para os próximos meses: a faxina. Até agora, esse procedimento partiu de fora para dentro, por meio de acusações e delações oriundas de inimigos internos, do mesmo partido. Partem de facções descontentes, amparadas na verdade dos fatos, com a ressonância da imprensa e apoio popular.

Caso o Planalto adote uma postura de protagonista, a confiabilidade dos formadores de opinião e da opinião pública crescerá muito, podendo oferecer um quadro antecipado de êxito para o Planalto nas eleições municipais de 2012. Esse cenário garantiria uma importante vantagem para as eleições de 2014. Nesse caso, as grandes cidades e capitais estariam à mão da atual coalizão governista, estreitando ainda mais os planos da oposição.

Caso o governo continue a reboque das acusações que partem dos seus andares inferiores, a credibilidade da presidente estará em xeque, diminuindo a possibilidade de uma histórica vitória dos partidos do governo federal no próximo pleito e, com certeza, a volta de Lula ao centro do cenário em 2014 será irreversível.

Com ele, retornarão as condutas: “é dando que se recebe”, “passar a mão nas cabeças mais indigestas”, “perdoar os pecadores passados, garantindo seu futuro”. É dele, a herança do mensalão, a tentativa de censura à mídia e o aumento de custo da máquina pública. Portanto, o seu retorno à cena reforçará os enganos e desvios. A oposição brasileira deveria iniciar uma campanha esclarecedora do desmazelo da era Lula, e preparar a opinião pública para um cenário de uma longa crise econômica internacional. Não será com o retorno do “Beato Salu”, que nos salvaremos.
Nos próximos três anos e meio, precisaremos:

1. Depreciar o real ao nível de indiferença entre importação e exportação, fugindo do que se constata ser o maior aniquilamento histórico da indústria nacional e do emprego. Denominamos como a batalha contra a doença holandesa (a venda do gás holandês à Europa lhe rendeu tantas reservas que sua moeda foi apreciada a tal ponto que destruiu a indústria local).

2. Criar condições necessárias à proteção de nossas fronteiras, riquezas minerais e dos mananciais de água. Seremos uma nação de segunda categoria se negarmos as condições de ataque ao crime organizado, ao contrabando e à invasão territorial de potências e interesses estrangeiros. Diga-se, essa invasão não será primordialmente militar, mas econômica: compra de terras, jazidas e autorização de exploração por meio de “laranjas”, e assim por diante.

3. Criar a condição de poupança, reduzindo o custeio da máquina para aplicação de recursos, visando a melhora da condição de vida de nossos cidadãos quanto a: educação em todos os níveis, habitação, transporte urbano, saneamento básico e saúde.

4. Debelar o custo Brasil em todas as suas frentes: melhoria das vias para exportação, redução de exigências burocráticas para exportação, reformulação da cadeia de impostos para a indústria brasileira e desoneração da folha de pagamento de nossas empresas e instituições.

Parece pouco se exposto em itens, porém é muito difícil de ser realizado sem um amplo apoio dentro e fora das esferas de governo.

Ronaldo Bianchi

Como vemos a liderança dos países e o cenário internacional?

1. Quanto aos países de longa tradição democrática:

As atuais lideranças surgiram a partir de desvios (fast track) que os modelos eletivos propiciam: quando não exigem dos seus candidatos, experiências parlamentares expressivas ou a ocupação de cargos executivos anteriores. Assim, os Estados Unidos elegeram Obama, que galgou o cargo presidencial após curto período no Senado (menos de oito anos), Sarkosy (França), Merkel (Alemanha), Zapateiro (Espanha), Berlusconi (Itália), Cameron (Inglaterra) e Naoto Kan (Japão). Os líderes europeus citados são hábeis políticos com especialidade em liderança no traquejo intra-partidário. Porém, sem característica de liderança regional e muito aquém de uma expressividade mundial.

2. A democracia à sul-americana:

O que significa, para você, os nomes: Hugo Chaves (Venezuela), Eduardo Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia), José Mujica (Uruguai), Fernando Lugo (Paraguai), Alejandro Toledo (Peru)?
Não soa uma esquerda à guerra fria, agora empoderada?
E quanto aos nomes de Cristina Kirshner (Argentina), Sebastian Piñera (Chile), Juan Manuel Santos (Colômbia) e Dilma Roussef (Brasil)? Reúnem características de estadista?

3. Países sob democracia recente:

No caso de países onde a democracia ainda está “amadurecendo”, como a Rússia de Putin (ex-agente da KGB – polícia secreta russa). Guardadas as devidas proporções, se Putin fosse brasileiro, teria sido o chefe do Serviço Nacional de Informações da época da ditadura e, agora, nosso presidente. Há outros exemplos como o Paquistão, onde até pouco tempo, um ditador militar dava as ordens. Iraque, Afeganistão, Egito, entre outros, estão iniciando uma retomada ou distanciando-se do peso das ditaduras explícitas ou disfarçadas.
Não podemos esperar muito discernimento e tolerância nesse conjunto de “mandatários”.

4. Países monarquistas, sem tradição democrática:

A Arábia Saudita é parte desse conjunto de países, onde as monarquias locais se instalaram no passado, por meio de “revoluções”, e dominam a sua economia até o presente. Marrocos e Jordânia são mais dois exemplos. Como são pró-ocidentais fecham-se os olhos para as suas fragilidades.

5. Países não-democráticos:

A China lidera os países onde a democracia não existe. A liberdade individual não é respeitada, a linha de conduta é ditada e a desobediência é punida através de prisões e execuções sumárias. Nessa condição estão: Líbia, Síria, Iêmen, Coréia do Norte e Cuba. Nesses países, os contratos entre pessoas e empresas são tutelados pelo Estado. As pessoas físicas e jurídicas são submetidas a um ditame governamental, onde não existe liberdade para os negócios, mobilidade demográfica e a internet é censurada.

6. Países Africanos e Asiáticos em ebulição:

Chade, Nigéria, República dos Camarões, Libéria, Filipinas, Vietnã, Tailândia entre outros. Todos se debatem entre uma ditadura disfarçada, por meio de um sistema eleitoral acostumado a sucessivas fraudes, e com suas estruturas de governo a mercê do general da vez.

7. O Não-Estado:

A Somália é a síntese da desagregação do Estado e da pulverização da nacionalidade, reduzida a uma luta de gangues pela supremacia local, com a intenção de espoliar os mais fracos.

Dentro dessa visão geopolítica, as forças individuais e as lideranças presentes parecem insuficientes para superar a complexidade de problemas que o planeta exige para que suas condições sejam preservadas, seja no aspecto econômico ou físico.
No aspecto econômico, não há solução sem um disciplinamento contratado mundialmente. Quanto ao aspecto físico, como crescer sem destruir as condições de vida do planeta: preservação da água doce, preservação da qualidade do ar, redução da emissão de carbono, garantia das reservas de fauna e flora e diminuição da temperatura global?

Acredito que entraremos num prolongado período recessivo ou de estagnação econômica. As cartas foram dadas há tempos, quando os processos políticos elegeram e mantiveram no poder, líderes inaptos para debelar os profundos desequilíbrios e superar os desafios que o próprio sistema provocou.

Ronaldo Bianchi

Desde 2008, dois representativos grupos de empresas disputam a melhor forma de atender o mercado brasileiro de calçados esportivos. De um lado estão os fabricantes brasileiros, verticalizados a favor de sobretaxas, da importação de partes ou do todo dos calçados, em particular os oriundos da China. De outro lado há, também, os fabricantes brasileiros de marcas internacionais que importam as partes e montam os calçados aqui. Dentro dessa guerra, ocorreram várias batalhas. Em 2008, o governo brasileiro implantou uma sobretaxa por par de calçados importados da China. A partir de 2009, a sobretaxa alcançou as partes importadas de qualquer outro país (solado em sua essência). Pelo acordo, as sobretaxas seriam reduzidas, paulatinamente, até serem zeradas em 2012.

O cenário parecia definido, porém os ânimos tornaram-se acirrados desde o ano passado, quando importadores ainda esperavam derrubar essa sobretaxa através de recurso. Não obtendo êxito, resolveram se agrupar e pleitear legitimamente o fim da sobretaxa antes de 2012 ou, no mínimo, evitar uma nova determinação do governo que a protelasse. As disputas estavam na arena da legitimidade até a última semana, quando o líder dos “nacionalistas” (aqueles a favor da sobretaxa), Sr. Milton Cardoso, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Calçados e da Vulcabrás, no intento de demonstrar ao governo que havia uma triangulação comercial espúria em curso: produtos sairiam da China com papéis de exportação do Vietnã, em direção aos portos brasileiros. Para “provar” sua tese, partiu para o crime: forjou, sim, forjou guias de importação de mercadorias do Vietnã, em nome de fornecedores inexistentes dentro do sistema brasileiro de importação. Para seu “azar”, a simulação foi detectada e sua ação considerada criminosa pelo governo. Dá a impressão de que ele não conseguiria provar sua tese dentro da legitimidade, só por meio de uma fraude que revelaria outra fraude.

O Sr. Milton Cardoso, executivo da Vulcabrás (propriedade do Sr. Pedro Grendene), deve estar com seus dias contados na dupla presidência do grupo empresarial e da Associação, e poderá ser processado pelo Ministério Público Federal por fraude a um sistema de governo. O que essa ação nos ensina?

1. A justiça deve se realizar dentro dos parâmetros legais, e nunca realizada pelas próprias mãos, muito menos através de uma ação criminosa.

2. A sua atitude feriu a ética de conduta de um dirigente empresarial, quando atribuiu a si próprio uma ação ilegal para provar a legitimidade de seus propósitos.

3. É bom lembrar que do lado dos importadores existem, também, as indústrias nacionais, que oferecem empregos, recolhem impostos e cumprem todos os requisitos legais pertinentes às suas atividades. Por essas e por outras, elas não podem ser acusadas de fraudadoras, como quis provar o Sr. Cardoso.

No final das contas, por sua incontinência, fica a percepção de que sua ação visava à protelação ou ao aumento da sobretaxa por tempo indefinido, no sentido de transformar a Vulcabrás na principal empresa beneficiária dessa sistemática. Pobre Vulcabrás, com uma tão bela história, ficou em maus lençóis.

Se há governança corporativa na Vulcabrás, é hora de aparecer e colocar um fim nessa situação que prejudicou a indústria nacional. Oque está em jogo não é saber qual dos lados tem razão, mas sim o fato de que nesse país, todos precisam obedecer às determinações do Estado. Não será fraudando sistemas, editais, concorrências públicas, que faremos do Brasil uma nação próspera e livre.
Vimos, mais uma vez, que a esperteza come o dono.

Leiam sobre esse assunto nos jornais Folha de São Paulo (22/07/11) e O Estado de São Paulo (23/07/11).

Ronaldo Bianchi