O formalismo do léxico econômico social distinguiu, em determinado momento, a divisão do trabalho por setores:

. Primeiro Setor – Governo
. Segundo Setor – Mercado
. Terceiro Setor – Sociedade Civil
. Quarto Setor – Crime Organizado

No passado, a visão preponderante estava ligada ao Censo, onde os setores econômicos são: extração, agricultura, indústria, comércio e serviços.

A primeira alternativa é mais abrangente porque inclui a visão econômica praticada na realização do Censo.

Nessa condição, os estudos do terceiro e do quarto setor são importantes para o entendimento da dinâmica social.

Nos Estados Unidos da América, participar de um Conselho de Administração em uma entidade sem fins lucrativos é um dos maiores reconhecimentos sociais almejados. A sociedade americana está baseada em valores cristãos. O enriquecimento se realiza através da ética do trabalho, fato, aliás, muito bem explorado por Max Weber em seu estudo “A ética protestante e o capitalismo”. Cabe ao enriquecido distribuir parte de seu ganho para as causas humanitárias como forma de retribuição de sua sorte. Além de revelar uma conduta diária de resignação, opondo-se a uma conduta pessoal de extravagância. A sociedade americana reconhece a participação de seus membros em Conselhos de organizações não governamentais como algo singular, relevante e meritório. A participação é acompanhada de generosas contribuições em dinheiro, bens e prestação de serviços.

A Lei Americana da Benemerência, de 1917, consolida uma antiga prática americana: a partir desta lei, as doações passaram a ser descontáveis, parcialmente, do imposto de renda a pagar, tanto de empresas quanto de pessoas físicas. A lei é ainda vigente.

O caso dos Conselhos de entidades brasileiras tem a característica diversa, cabendo mais a situação de pertencer, sem a obrigação de doar. Na prática, trata-se de gerir doações de terceiros e do Estado. As leis de incentivo às práticas culturais, esportivas e filantrópicas estão lastreadas na renúncia fiscal e, como consequência, ampliaram a participação do Estado em detrimento da contribuição privada. Hoje, é comum Conselhos serem formados por representantes de empresas, na expectativa de alcançarem doações lastreadas nestas leis. A segunda característica é o formato muito numeroso de governança.

Existem Conselhos com 80 membros, como é o caso do Museu de Arte de São Paulo. A terceira é a condição restritiva, imposta pelos estatutos, à reposição dos membros do Conselho. O sentido natural seria a escolha de membros dentro do agrupamento dos sócios, fato que, em regra, não corresponde à realidade. O Conselho arregimenta novos membros dentro de critérios de afinidades pessoais e/ou sociais, no limite do potencial econômico. A formação do Conselho de organizações sem fins lucrativos necessita de reformulações. Critérios técnicos de escolha de seus membros, sua independência frente à diretoria e redução do número de membros seriam medidas adequadas à adoção de boas práticas ainda incomuns em nossas organizações sem fins lucrativos.

Ronaldo Bianchi

Abordarei o papel do Conselho em três tipos de organização: estatais/públicas, privadas e sem fins lucrativos. Formarão um conjunto de artigos com o objetivo de destacar as peculiaridades de cada quanto a:

1) Forma de comportamento dos dirigentes;
2) Estilo de procedimento para a rede de relacionamento;
3) Acompanhamento de resultados e gestão de recursos.
4) Formação do Conselho.

Iniciarei com as estatais/públicas, obedecendo a lógica setorial: primeiro, segundo e terceiro setor – governo/estado, mercado e sociedade civil, respectivamente.
Há empresas estatais, autarquias e fundações que são sociedades fechadas. O capital é estatal, sem participação de qualquer ente do mercado. As ações ou composição acionária são restritas ao Estado que as criou. Em São Paulo, são exemplos: EMPLASA – Empresa de Planejamento S.A.; IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas; CPOS – Companhia Paulista de Obras e Serviços, empresas públicas com capital exclusivamente formado pelo tesouro do Estado. Quem nomeia seus conselheiros e diretores é o poder executivo, em particular, a Secretaria vinculada e o governador. O governador nomeia os dirigentes executivos e seus conselheiros por mandato, escolhendo, de uma forma geral, pessoas vinculadas ao governo, ocupantes de outros cargos públicos, antigos dirigentes e algumas autoridades do setor em tela.

A “descoberta” da governança corporativa nesse tipo de organização é recente. Geralmente, o Conselho era uma forma de completar a remuneração do dirigente de órgãos do executivo como chefes de gabinete, secretários adjuntos, secretários e outros dirigentes de organizações públicas. A nova legislação compromete o conselheiro quanto aos atos praticados pela organização. Oque era mera formalidade, começou a se reverter para compromisso solidário. Hoje, é comum o Conselho exigir dos executivos, uma apresentação profunda das condições estruturais e funcionais desse tipo de organização como: balanços mensais, mapas de risco, relatórios de desempenho, acompanhamento das lides jurídicas, exigências emanadas pelos órgãos fiscalizadores como Tribunal de Contas do estado e Corregedoria da Secretaria da Fazenda.

O aparelho fiscalizador do Estado passou a ser muito mais ativo a partir de 2006, quando foram criadas várias forças tarefa que culminaram com a formação de equipes permanentes de fiscalização. Diga-se que, a princípio, aquém da qualidade exigida pela função, e muito preocupadas com a formalidade dos atos. Creio que levarão anos até entenderem que a vigilância dos resultados acompanham “pari passu” a obediência ao campo legal (o conjunto de leis e normas) que regulamentam a organização.

As empresas estatais ainda carecem de um projeto de intenso relacionamento intragoverno e sociedade. Elas prestam pouca atenção às funções de responsabilidade social, ocupando muito do seu tempo no atendimento aos órgãos regulatórios e fiscalizadores. Caberia ao próprio poder público, criar modelos voltados ao melhor desempenho. Em sua rede de relacionamento, ainda há uma atenção exagerada no atendimento aos interesses da Secretaria vinculada. Pouco se concretiza na divulgação e no uso dos produtos que a organização gera para a sociedade e outros órgãos públicos.

Creio que um organismo do planejamento deveria se responsabilizar pela articulação das estatais e seus produtos. Vejo essa possibilidade com otimismo, pois a governança corporativa assinala essa direção.

Ronaldo Bianchi

As empresas públicas de capital aberto – S. A. – tem seu Conselho apontado por seus acionistas e em todos os casos há uma representação dos funcionários. Hoje, é uma obrigação legal.
De forma diversa das empresas públicas de capital fechado, o Conselho sofre influência dos acionistas minoritários, dado que parte de seu capital é pulverizado via Bolsa de Valores.

Os exemplos federais de empresas abertas mais importantes são: Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil. Há casos de empresas estaduais de capital aberto como a Sabesp, no caso paulista. A escolha de seus conselheiros ainda é uma equação política e não técnica. A maioria das escolhas recai em nomes de confiança do governo ao qual está relacionada.

A figura do conselheiro independente ainda não é uma realidade. Dessa forma, a busca por um desempenho diferenciado, pela competência no mercado em empresa pública S. A. aberta, ainda não acontece. A sua estrutura de governança não se aprofunda na prospecção de alternativas para o desempenho econômico e financeiro, obedecendo às linhas do governo empossado no aparelho de Estado. Portanto, componentes políticos inibem ou desvirtuam sua função de empresa, fato visível na Petrobras, onde por diversas vezes, os jornais noticiam o atraso na majoração de preços ao consumidor para influenciar os índices inflacionários. Essa intromissão derruba o valor da empresa, a sua política de preços e a sua lucratividade não ficam transparentes. Quando a empresa pública torna-se uma operação de manobra de governo, a imagem fica comprometida. Não critico o fato de a estrutura do capital ser pública, mas a interferência do governo em sua política de gestão de recursos.

Essas operações deveriam obedecer a um conselho com maior independência, blindado da interferência do poder executivo ou sua vitimização pelo poder legislativo. Quem sofre com a má gestão da empresa pública S. A.? São os seus acionistas minoritários como toda a nação, quando o desempenho não ocorre em sua plenitude e é a própria empresa que perde recursos para seu progresso. Portanto, o mercado sabe quando a empresa está abaixo de sua potencialidade. O valor das ações refletem condições especulativas devido à fraca expectativa de reconhecer potencialidades estruturais de seu desempenho.

Talvez, algum dia, possamos ver algo diferente do que existe hoje.

Ronaldo Bianchi

Cada área de atividade econômica é composta por oportunidades e ameaças.

O sistema capitalista atual baseia-se em duas vertentes verticais:
a) inovação
b) marketing.

A inovação gera a oportunidade para as organizações adquirirem competência no sentido de capturar, reter e ampliar seus ganhos. Cria na mente dos consumidores necessidades até então ausentes, formatando novos produtos e serviços. Quase sempre no sentido de facilitar nossa vida.

Por exemplo: a descoberta de novos medicamentos e vacinas para combate de causas e efeitos de doenças crônicas e endêmicas.

A proposta das organizações, ligadas a área fármaco é criar produtos que eliminem ou atenuem as doenças da humanidade, da fauna e flora cultivada por nós, para a nossa sobrevivência.
Portanto, a empresa que alcança uma inovação diferenciada, quanto a correção das disfunções de nossa saúde poderá ganhar recursos e se bem administrada prolongar a sua existência.

Cabe neste instante perguntar: se este for o diferencial para o sucesso, qual proteção que o sistema oferece para que este ganho se realize? A Patente válida para o mundo científico, eletrônico, metalúrgico, fármaco, químico e os demais ligados a produção material. Os processos podem e devem ser patenteados quando apresentarem caráter inovador, relevante e representem ganhos para as organizações que investiram em suas inovações.

Quando as características pertencerem ao mundo criativo: da comunicação, das artes, o processo é protegido pelo direito autoral. Assim, artistas, compositores, arquitetos, designers, escritores, publicitários e construtores de softwares possuam esse abrigo. Portanto, todos os protagonistas da criação e as empresas a eles vinculadas podem usufruir de seus produtos garantindo ganhos e recursos.

Portanto, a cautela quanto ao registro de invenções e criações devem ser procedimentos obrigatórios para resultar em margens e lucros.

Toda esta máquina da criação não poderá ter eficácia sem a segunda vertente: o marketing.
Esta atividade explicita aos consumidores e a sociedade o valor das invenções, criações e inovações que nossa economia produz. É o marketing que torna realidade e configura a imagem perceptiva para a sua compreensão e discernimento.

Portanto, os riscos que devemos analisar são intrínsecas quanto a da proposta e seu processo comunicativo. As organizações de sucesso tomam precauções nas duas pontas. Ser incauto em uma delas poderá por a perder todo o esforço empreendido por organizações e pessoas quanto a inovação e divulgação.

Ronaldo Bianchi

Há dois riscos importantes para as organizações ligadas ao desenvolvimento e gestão.

Desenvolvimento

Crescer menos que a concorrência é negligência, fator letal para organizações. Perdem a relevância junto a acionistas, clientes e fornecedores. A ausência de crescimento são traços visíveis de decadência. Este alerta vale para qualquer organização, com ou sem fins lucrativos e organizações governamentais.

Explico: Paralisar o crescimento reflete em menos disponibilidade de caixa para: pesquisa, propaganda, desenvolvimento de mercados novos, investimentos em novas áreas de conhecimento, máquinas, dispositivos e aumento de produtividade.

Gestão

Se no passado, possuir elementos como capital financeiro e capacidade tecnológica eram fatores decisivos para o sucesso organizacional, hoje além destes, acrescentamos:

1. Captura, desenvolvimento e situação dos talentos de recursos humanos. Creio que no fundo sempre foi o fator mais decisivo para o sucesso organizacional. Porém, sua relevância se tornou mais evidente, a partir do momento em que os fatores “hardware” tornam-se comodities. Máquinas, equipamentos e seus acessórios passaram a estar disponíveis nos quatro quadrantes mundiais. A sua aquisição facilitada seja pelo prazo, financiamento e assistência de implantação e manutenção. Atualmente o que decide são recursos humanos criativos, comprometidos e que produzem resultados.

2. Para complementar: negligenciar processos. A organização de sucesso privilegia o conhecimento do seu processo. Esta operação de permanente negligência e reposicionamento garante vitalidade e inibe a acomodação. Por meio de processos, garantimos padronização, observamos possíveis inconsistências na realização de produtos e serviços. Aprimoramos a realização de redução de custos e aumento de resultados.

Portanto, crescer é bom.

Ronaldo Bianchi

As organizações sem fins lucrativos tem sido alvo de críticas nos últimos tempos. Sobre algumas delas, paira a suspeita de exercício do papel de “laranjas” em esquemas de transferência de recursos governamentais. Como ocorrem? Autoridades dos poderes executivos liberam recursos orçamentários para organizações com algum vínculo junto a parlamentares ou ocupantes de cargos do executivo. O orçamento nacional é a fonte das receitas e o destino das despesas. Parte das receitas é renunciada pela união, a favor de programas para o desenvolvimento econômico, social, cultural e científico.

Em anos recentes (2008-2010), o total desse procedimento aumentou, passando de R$ 120 bilhões para R$ 130 bilhões. A fatia expressiva está ligada ao eixo econômico-científico.
Todo montante, depois de distribuído e empregado pelas organizações, é conferido por meio de sistemas de prestação de contas e modulado conforme a finalidade.

A segunda forma de distribuição de recursos públicos ocorre por meio de convênios e contratos realizados pelo poder executivo (ministérios), podendo ser ordenada por parlamentares e bancadas estaduais na esfera do Congresso Nacional. Da mesma forma que a renúncia, as organizações beneficiadas devem aprovar suas pretensões para o uso dos recursos, obedecer a editais e condições de contratos e convênios, e fornecer as informações cadastrais solicitadas para fazer jus aos recursos.

Até agora, vimos um cenário do que deveria ser. Porém, nem tudo o que se vê é uma tranquila sequência de procedimentos. Quais são os riscos dessas organizações e de quem libera os seus recursos? Os recursos são liberados a partir de um modelo físico e financeiro cronologicamente demonstrado e aprovado por uma comissão ministerial. A liberação só ocorrerá após trâmite nas áreas jurídica, administrativa e financeira do ministério. A partir da liberação, as organizações passam a correr riscos:

1. Não cumprir o estabelecido no objeto do contrato de liberação.

2. Desobedecer a planilhas aprovadas, gastando mais em alguns itens do que em outros e ultrapassando o percentual acordado.

3. Comprando ativos para a organização quando o recurso é dedicado ao custeio.

4. Relaciona pagamentos lastreados em documentos inválidos, como por exemplo, notas fiscais expedidas por empresas cujo objeto social e estatutário está ausente ou em desacordo com o serviço ou produto comprado.

5. Não cumpre a obrigação do processo de compra, exigido pelo convênio ou contrato. O governo obriga que compras em convênio sigam a Lei 8666, que regulamenta compras de produtos e serviços.

As desobediências a esses cinco itens podem levar as ONGs a serem impedidas de participar de outros certames, seus diretores e conselheiros podem responder com seus bens e recursos pelo prejuízo ou desobediência causados ao erário.

Caso a apuração conclua que ocorreu culpa ou dolo, o processo administrativo transforma-se em sindicância. Nesse caso, há várias consequências ao(s) dirigente(s), conforme a gravidade, podendo:

a) Ser advertido.

b) Ser suspenso.

c) Ser demitido a bem do serviço público se funcionário de carreira. No caso de cargo de confiança, apenas demitido.

d) Responder a uma ação civil pública que poderá levá-lo a ressarcir o dano ao erário público. Nada fácil para quem opte pelo mau desempenho ou vacile na formalidade dos atos.

Quais são os riscos de quem libera recursos para entidades sem fins lucrativos? Quando:
a) Há suspeitas – aparentam irregularidades, não são visíveis, porém, já foram mencionadas pela imprensa.

b) O cadastramento encontra-se incompleto nos registros dos ministérios.

c) Encontra-se com pendências como: esclarecimentos, prestação de contas, inadimplentes junto a outros órgãos governamentais.

O primeiro passo de qualquer indício será a abertura de uma investigação, denominada apuração preliminar e, caso confirme-se a inocência, o processo é arquivado.

Ronaldo Bianchi

Há dois fatores que se confundem no meio organizacional: risco e oportunidade. Já ouvimos falar diversas vezes que onde há risco, há oportunidade. Até chegamos a acreditar que quanto maior o risco, maior será a probabilidade de ganhos.

Parto do princípio de que essas considerações sejam precipitadas e descuidadas de cautela. Quando as margens de lucro das organizações se retraem das áreas produtivas (geração de fogões, carne processada) ou comerciais (atacado ou sede varejista), suas áreas financeiras iniciam uma conversão operacional sobre a estratégia da empresa. Passam a “vender” a idéia à diretoria e conselheiros, de que a saída para a crise seria aplicar no mercado futuro (dólar, euro, commodities), as reservas financeiras, a sobra de caixa e até mesmo a capacidade de endividamento para realizar essas operações. A probabilidade de essas operações acabarem mal é maior do que a de terminarem bem.

Sou a favor da posição conservadora: a gestão de resultados deve ser foco organizacional. Se a organização encontra-se com suas margens operacionais comprometidas, há evidência de descuido da direção. Transformar os fundos, reservas e capacidade de endividamento em um objeto de apostas, indica e reforça a inconsistência da efetividade dos gestores. O estudo das causas da geração de maus resultados deveria preceder qualquer outra alternativa. Quem sabe, realmente, o que se passa nas entranhas da empresa?

O que ocasionou a drenagem de rendimento? Em primeiro lugar, qualquer que seja a dimensão da empresa, cabe uma avaliação constante (mensal) de seu desempenho, no sentido de alertar possíveis falhas do reconhecimento de uma crise latente ou um cenário futuro adverso. A avaliação dos controles internos que determina a saúde das finanças empresariais seria o primeiro ponto a ser estudado. Todos os recebíveis estão dentro da média da empresa? A cessão de crédito a clientes está obedecendo as regras estabelecidas? A reserva de contingência está no nível estipulado? Está aplicada em propostas seguras (CDB, Tesouro Nacional)? Como estão os níveis de estoque iniciais, intermediários e finais dos produtos dentro da linha de produção? Estão em equilíbrio proporcional ao giro de vendas?

Se não bastassem essas questões, cabe aos responsáveis executivos definirem o ponto de alavancagem financeira, que define-se como aquele que a geração positiva de caixa e/ou reduz os seus riscos. A cobertura de caixa define-se como o produto da divisão, tendo como numerador, a sobra gerada de caixa sobre a somatória do principal de uma dívida agregados os juros correspondentes.

Dessa forma, a alavancagem máxima define-se como a composição entre capital próprio e de terceiros que maximiza o valor da organização no limite, daquele ponto acima, o custo de capital não retorna ao acionista ou para o pagamento do débito ao credor.

Como evitar esses riscos financeiros? Por meio do mapeamento dos processos e a sua constante auditagem. Abordaremos outros riscos e como evitá-los no próximo artigo.

Ronaldo Bianchi

A regulamentação do trabalho no Brasil remonta à era Vargas (1930-1945). A existência de uma legislação consolidada é um fato relevante para o sistema produtivo brasileiro. A Consolidação das Leis de Trabalho foi lastreada sob a égide da Carta Del Lavoro da era fascista italiana (1929-1944). A existência de uma legislação regulatória é louvável quando examinamos o perfil cartelizado da economia privada brasileira, porém, a sua aplicação atual exigiria uma revisão flexibilizadora frente à concorrência mundial do processo produtivo. Enquanto isso, a legislação do trabalho para o setor público obedece outros princípios, porém num formato mais contundente, engessa a gestão pública em vários sentidos. Há o lado bom, localizado na proteção das carreiras de estado (segurança nacional, magistrados, assuntos fazendários, diplomatas), porém em um mundo tão veloz, deveria flexibilizar os contratos em casos semelhantes ao mercado. A conta no setor público fecha pelo menor e insuficiente desempenho.
Voltemos ao tema dos riscos: quais os riscos trabalhistas que compõem a matriz dos maiores riscos para organizações privadas e sem fins lucrativos dentro desse cenário?

No artigo anterior apresentamos alguns riscos, e neste iremos aprofundar a análise referente aos reflexos da atual legislação e sua interpretação no decorrer de décadas pela justiça trabalhista.

1. A regulamentação profissional
Quando a profissão está regulamentada, como é o caso dos jornalistas, radialistas, aeroviários, por exemplo, a legislação limita o número de horas a um montante inferior em relação a outras profissões não regulamentadas. Por outro lado, concede ao trabalhador, uma carga inferior àquela de que ele estaria disposto a oferecer ao mercado. Dessa forma, há uma desobediência pelo mercado à legislação, maior ou menor, de acordo com o setor de atividade e a opção do trabalhador.

Caso haja um processo sindical ativo, a legislação é obedecida próximo da íntegra, e as conseqüências de sua desobediência levará a empresa ao pagamento de multas, além de sofrer sentenças judiciais adversas. Ambas significam perda de valor e possibilidade de criar um passivo maior que seu patrimônio, ocasionando sua paralisação no futuro. As sentenças tem o poder, quando executadas, de penhorar, leiloar bens, como seqüestrar saldos bancários. Esses eventos, hoje, são muito comuns e constantes, um pesadelo para empresários em dificuldade. As empresas enquadradas pelo sistema sindical com funções regulamentadas deveriam, dentro de suas possibilidades, enfrentar seu destino. Na esfera do mercado, há empresas de comunicação que precarizam suas relações com a anuência de seus colaboradores, na expectativa de se revelarem lucrativas.
É uma falsa perspectiva, pois a punição pela desobediência poderá levá-las à extinção a médio ou longo prazo. Basta uma conjunção de eventos negativos e pronto, revelam-se as mazelas. Os exemplos da Rede Manchete e Tupi são eloqüentes. Na área aeroviária, há os exemplos da Transbrasil, Varig e Vasp.

2. Terceirização
Quando as empresas terceirizam atividades auxiliares para o seu desempenho, devem se acautelar quanto ao seguinte:

a) As contribuições sociais do contratado devem estar absolutamente em dia com os funcionários que prestam os serviços para a contratante. Portanto, é obrigação das partes (empregador e empregado) a verificação mensal de seu pagamento.

b) As horas extras não devem extrapolar a legislação e os acordos coletivos.

c) A aplicação dos itens sociais e econômicos dos acordos coletivos deve ser objeto de auditoria contratual.

d) O contratante deve exigir da contratada, que seus funcionários cumpram o intervalo de descanso estabelecido na legislação e nos dissídios.

A Justiça Trabalhista apença o contratante a solidariedade quanto a qualquer desobediência, descumprimento ou inadimplência por parte do contratado. Em outras palavras, a contratante desempenha o papel de fiscalizar o contratado, somada o fato de ser imputável, solidária e conivente com as irresponsabilidades praticadas por seus contratados.
Atualmente, portanto, a terceirização pode ser classificada como um dos maiores fatores de risco organizacional.

No próximo artigo, abordaremos outros riscos organizacionais.

Ronaldo Bianchi

Ao escrevermos cinco artigos sobre a previsibilidade do futuro nas organizações, nosso objetivo foi apontar as causas e as conseqüências dos atos administrativos, as influências do governo e da sociedade.

Nesse artigo, nossa intenção é apontar alguns riscos que se despercebidos, são perigosamente relevantes, e oriundos de fatores como: legislação, cultura e administração de recursos, que impõem uma agenda de cautela para os administradores. Os riscos podem variar conforme a área de atuação de uma organização, outros permeiam qualquer tipo de organização. O impacto dos riscos quanto às regras de preservação do meio ambiente, é mais relevante para as indústrias e para a agricultura do que para as áreas da economia criativa (agências de publicidade, museus e comunicação, por exemplo). Para essas últimas, os riscos do direito autoral e dos conexos tem grande importância.

Outros riscos são relevantes para qualquer tipo de organização. São aqueles ligados ao cumprimento da legislação trabalhista, da administração financeira, dos procedimentos contábeis e os que se referem ao tratamento dos recursos humanos.

A organização tem a obrigação de mapear seus principais fatores de risco no sentido de administrá-los, evitando sua ocorrência ou minimizando seus efeitos. Deve administrar seus riscos com o rigor proporcional aos seus efeitos e a direção tem a obrigação de realizar inspeções freqüentes dos indicadores e dos fatores de risco. Afirmo que não importa o tamanho da empresa, os riscos serão fatores desestabilizadores da vitalidade e até mesmo da sobrevivência empresarial.

Vamos examinar os riscos do descumprimento da legislação trabalhista. A legislação brasileira permite contratações de diversas formas, e de acordo com o tempo, a função, a freqüência, a hierarquia, a assiduidade e a responsabilidade. Assim, contratamos sob várias formas: autônomas, pessoas jurídicas, pessoas vinculadas a cooperativas, pela consolidação do trabalho por tempo determinado ou indeterminado.

A disfunção contratual, por conta da má contratação, começa quando o gestor acredita que poderá reduzir seus custos operacionais, deixando de contratar seus fornecedores ou colaboradores da forma legalmente correta. É freqüente em pequenas organizações, não registrar seus funcionários, fato que pode decretar o seu fim. Basta que um funcionário sofra um acidente fatal ou que o lese de forma permanente, durante o exercício de suas funções, e o empresário poderá responder por danos morais e ser condenado a indenizar a vítima e sua família. Essa, talvez, seja a face mais trágica de desfecho pela forma imprópria de contratação. Esse tipo de contratação era comum em empresas de entrega por motocicletas, imaginem o passivo criado por esses empresários iniciantes.

Nas grandes organizações, onde supomos que não haja contratações informais, sempre há algum argumento para que contratações por tempo indeterminado sejam transformadas em contratos com pessoas jurídicas. O risco passa a existir desde o primeiro dia da contratação do profissional. É muito comum esse tipo de relação ser estabelecido na área de comunicação. Outra forma ilegal praticada por pequenas e médias empresas que fornecem para grandes empresas é a contratação por um valor básico e deste, recolhem-se as contribuições sociais, o valor complementar é pago sem registro (“por fora”).

Dessa forma, as grandes empresas devem acompanhar de que forma seus fornecedores contratam seus colaboradores, em especial para funções onde a prestação de serviços ocorre nas dependências da contratante. Caso o contratado seja desleixado, cabe à contratante destratar a sua relação e partir para outro. A conivência com atos ilícitos é imputável ao contratante (executivos e conselheiros). Portanto, o tratamento de atos ilegais será a intolerância.

No próximo artigo daremos seqüência ao assunto.

Ronaldo Bianchi

Os cuidados com alguns fundamentos das organizações definem as suas capacidades relativas à longevidade e às forças de superação nas crises.

Quais seriam os fundamentos mais evidentes?

1. Capacidade de investimento – as empresas que descuidam da renovação, atualização e aumento de sua produtividade constante assinam um atestado de óbito prematuramente. Essa “fatura” será cobrada pela falta de investimento, ou pior, pela incapacidade da organização em conseguir investir. Quando? Outras empresas começarem a abocanhar nacos de seu mercado, ou quando uma importante crise setorial abater sobre o mercado. Nesse momento, sua estrutura deverá:

a) Estar enxuta (pela produtividade).
b) Com custos a prova de crise, em outras palavras, projetar lucros mesmo quando a demanda se retrair.
c) Ter flexibilidade na linha de produção (dada a sua modernização).
d) Apresentar preços competitivos aos padrões internacionais.

2. Integração e treinamento da equipe – as empresas com o melhor modelo de compromisso com sua força de trabalho poderá superar as adversidades com melhor possibilidade de êxito do que aquelas que enxergam os recursos humanos como custo, fardo, mal necessário, ou não passam de números. As empresas que remuneram pelo êxito, desempenho individual e por grupo e geral serão mais bem recompensadas do que aquelas que não compartilham seus resultados.

3. A profissionalização da administração – tenho o comando familiar como um importante fator de empreender dentro de cenários adversos. Há que reconhecer o valor daqueles que visionaram oportunidades, quando outros as enxergaram como obstáculos. Focar na solução e não no problema faz a diferença. Porém, tudo dá certo por um tempo, e não por tempo indefinido, seja qual for a organização. Enxergar o momento certo de o empreendedor compartilhar com os empresários (da família ou profissionais) é fator decisivo para o sucesso.

Para ilustrar os comentários, podemos citar:

1. A falta de investimento levou a Antarctica a ser vendida para a Brahma.

2. A integração da equipe e o treinamento levaram a Procter & Gamble a ser uma empresa centenária em constante crescimento, assim como a 3M e a Dupont.
3. A profissionalização transformou o Grupo Ultra em uma das organizações mais lucrativas e perenes do Brasil e, da mesma forma, a Embraer.

Os exemplos de superação estão ligados à capacidade de conhecimento dos mercados onde atuam, na valorização do lucro, no investimento contínuo, no cuidado com os recursos humanos, e na capacidade estratégica da direção das empresas e de seu autoconhecimento.

Ronaldo Bianchi